sexta-feira, janeiro 26, 2007

Fotografia directa

Ou como a fotografia se fez arte

Na ideia de muitas pessoas, a fotografia está frequentemente associada à noção de “documento”. Isto porque, desde o seu “nascimento”, é utilizada enquanto testemunho da realidade. Como recordação dessa mesma realidade, como memória de um momento preciso no tempo.

Os pictorialistas trabalhavam contra a fotografia directa, não a considerando expressão artística. Em 1907, Alfred Stieglitz, faz uma fotografia, the steerage (a entreponte), que se tornará um verdadeiro manifesto de um novo estilo, Straight Photography. Talvez a primeira abordagem social a levar passageiros de 3ª classe às galerias de arte.
Stieglitz, Paul Strand, Edward Steichen e outros que lhes seguiram, abandonam o pictorialismo e criam o grupo Photo Secession. Como o nome sugere, é uma quebra na estética fotográfica.

A fotografia assume, enquanto expressão artística, os seus princípios intrínsecos, ou seja, já pode ser igual a si própria.
Liberta-se de artifícios e é válida enquanto representação da realidade, ou do mundo visível, ou talvez não…

Para a Straight Photography é no momento de fotografar que a composição da imagem é concebida na sua globalidade. Contrariamente ao pictorialismo, esta corrente defende a fotografia finalizada na captura, contra a manipulação posterior.
É a chegada do “instantâneo” à arte.

Da fotografia directa, contra o tecnicismo pictorialista, chegamos ao preciosismo técnico da captura e da prova.

Edward Weston, um verdadeiro chefe de fila da fotografia pura (como lhe chama Pierre-Jean Amar), afirma no seu diário: “Só uma prova tecnicamente perfeita, tirada de um negativo tecnicamente perfeito, pode, aos meus olhos, ter valor intelectual ou capacidade emocional”.
Ansel Adams desenvolve o sistema de zonas para permitir um controlo completo sobre as gamas tonais representadas na fotografia.
Weston, com Adams, Immogen Cunningham e Willard Van dyke fundam o movimento f/64 em 1932. Este grupo, para além da fotografia pura, vai mais longe, defendendo a fotografia perfeitamente “nítida”. Com temas comuns entre si, das paisagens ás naturezas mortas, aos grandes planos de objectos e plantas. Celebram a beleza natural e, frequentemente, a do mundo industrial.

Simultaneamente, há na Europa fotógrafos com a mesma abordagem da Straight Photography, de Joseph Sudek a Alexander Rodchenko.

No fim, o mundo da fotografia apropria-se da fotografia científica, do microscópio às fotografias de alta velocidade…
As cristalizações microscópicas, a deformação de uma bola de golfe no momento da tacada, uma gota capturada quando cai, tudo o que era utilização científica pode agora ser arte.

É com Alfred Stieglitz, chamado por muitos como o pai da fotografia moderna, e o movimento Straight Photography que nos aproximamos do conceito que temos hoje. A fotografia vale por si mesma, continuando a ser apenas uma técnica de comunicação, trabalhada ou não, tecnicamente perfeita ou não, representativa ou minimalista.

Referências bibliograficas:
História da Fotografia, Pierre-Jean Amar, Edições 70
A Fotografia, Gabriel Bauret, Edições 70

1 comentário:

Jose Pedras disse...

Desde ja quero felicitá-lo pelo seu blog e pelas informações que aqui expõe. Para além de correctas são de fácil compreensão e muito claras para qualquer pessoa interessada neste maravilhoso mundo que é a fotografia.