domingo, agosto 31, 2008

Joaquim Castro Caldas




‘Perfil’

Aprendi a escrever
À mesa e sem fome
A olhar para uma sopa de letras
E a dançar com a colher no fumo
Refilei que estava a escaldar
E fui fazer uma redacção
Para a cozinha de castigo
Assim comecei a gostar de comer
Aprendi a fazer teatro numa cave
Atei a uma cama uma irmãzinha
Ela não abria a boca e eu falava sozinho
E aplaudiram-me de pé e tudo
Assim comecei a amar o público
O meu primeiro grande papel
Foi bater a uma porta, levar uma estalada
E sair, um estrondoso êxito para a meninice
Imitava toda a gente da rádio e televisão
Improvisava embaraços com um irmão
Mas as rábulas com ditadores e cardiais
Mal podiam sair de casa
Assim o público me puxou para a rua

Joaquim Castro Caldas
in Correio da Manhã, 14 de Março de 2008


PS: Os poetas não morrem, mas os homens fazem sempre falta.
Joaquim Castro Caldas faleceu hoje de madrugada...

Sem comentários: